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quarta-feira, 14 de março de 2012

Capitulo 1, 2 e 3 do livro filosofando



##CAPÍTULO 1


O QUE É FILOSOFIA?


        O que pretendo sob o título de Filosofia, como fim e campo das minhas elaborações, sei-o, naturalmente. E contudo não o sei... Qual o pensador para quem,
na sua vida de filósofo, a filosofia deixou de ser um enigma?... Só os pensadores secundários que, na verdade, não se podem chamar filósofos, estão contentes com
as suas definições.
(GHusserl)

A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo.
(Merleau-Ponty)


(Gravura)
A história de Morte de Sócrates, de Louis David.
Sócrates foi condenado à morte acusado de corromper a mocidade e de desconhecer os deuses da Cidade. Enquanto aguardava a execução
da sentença, discutia com seus discípulos a respeito da imortalidade da alma,
sua condenação, defesa e morte é contada no belo diálogo de Platão, Apologia de Sócrates. Na prisão, o mestre discutia com os discípulos questões sobre a imortalidade
da alma, relatadas no Fédon, também de Platão.



1, Introdução

        Lembremos a figura de Sócrates. Viveu em Atenas no século V a.C. Dizem que era um homem feio, mas, quando falava, era dono de estranho fascínio. Procurado
pelos jovens, passava horas discutindo na praça pública. Interpelava os transeuntes, dizendo-se ignorante, e fazia perguntas aos que julgavam entender determinado
assunto. colocava o interlocutor em tal situação que não havia saída senão reconhecer a própria ignorância. Com isso Sócrates conseguiu rancorosos inimigos. Mas
também alguns discípulos.
        O interessante e que na segunda parte do seu método", que se seguia à destruição da ilusão do conhecimento, nem sempre se chegava de fato a uma conclusão
efetiva. Sabemos disso não pelo próprio Sócrates, que nunca escreveu, mas por seus discípulos, sobretudo Platão e
Xenofonte (ver o texto complementar II deste capítulo: "Ciência e missão de Sócrates").
        Afinal, acusado de corromper a mocidade e desconhecer os deuses da Cidade, Sócrates foi condenado à morte.
**nota

Ver referências ao método de Sócrates ,na Primeira Parte do Capitulo 10- Teoria do conhecimento.

        A partir do que foi dito, podemos fazer algumas observações:

        - Sócrates não está em seu "gabinete" contemplando "o próprio umbigo", e sim na praça pública.
        - A relação estabelecida com as pessoas não é puramente intelectual nem alheia às emoções.
        - Seu conhecimento não é livresco, mas vivo e em processo de se fazer; o conteúdo é a experiência cotidiana.
        - Guia-se pelo princípio de que nada sabe e, desta perplexidade primeira, inicia a
interrogação e o questionamento do que é
familiar.
        - Ao criticar o saber dogmático, não quer com isso dizer que ele próprio é detentor de um saber. Desperta as consciências adormecidas, mas não se considera
um "farol" que ilumina; o caminho novo deve ser construído pela discussão, que é intersubjetiva, e pela busca criativa das soluções.
        - Portanto, Sócrates é "subversivo" porque "desnorteia", perturba a "ordem" do conhecer e do fazer e, portanto, deve morrer.

        Se fizermos um paralelo entre Sócrates e a própria filosofia, chegaremos à conclusão de que o lugar da filosofia é na praça pública, daí a sua vocação política.
Por ser alteradora da ordem, perturba, incomoda e é sempre "expulsa da cidade", mesmo quando as pessoas se riem do filósofo ou o consideram "inútil". Por via das
dúvidas, o amordaçam, cortam o "mal" pela raiz e até retiram a filosofia dos cursos secundários... Mas há outras formas de "matar" a filosofia: quando a tornamos
pensamento dogmático e discurso do poder, ou, ainda, quando cinicamente reabilitamos Sócrates morto, já que então se
tornou inofensivo.


2.        A atitude filosófica

        Entre os antigos gregos predominava inicialmente a consciência mítica, cuja maior expressão se encontra nos poemas de Homero e Hesíodo, conforme já vimos
no capítulo anterior.
        Quando se dá a passagem da consciência mítica para a racional, aparecem os primeiros sábios, sophos, como se diz em grego. Um deles, chamado Pitágoras (séc.
VI a.C.), que também era matemático, usou pela primeira vez a palavra filosofia (philos-sophia), que significa "amor à sabedoria". É bom
observar que a própria etimologia
mostra que a filosofia não é puro logos, pura razão: ela é a procura amorosa da verdade.
        O trabalho filosófico é essencialmente teórico. Mas isso não significa que a filosofia esteja à margem do mundo, nem que ela constitua um
corpo de doutrina
ou um saber acabado, com determinado conteúdo, ou que seja um conjunto de conhecimentos estabelecidos de uma vez por todas.
        Para Platão, a primeira virtude do filósofo é admirar-se. A admiração é a condição de onde deriva a capacidade de problematizar, o que marca a filosofia
não como posse da verdade, mas como sua busca. Para Kant filósofo alemão do século XVIII, "não há
filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar".
Isto significa que a filosofia é sobretudo uma atitude, um pensar permanente.
É um conhecimento instituinte, no sentido de que questiona o saber instituido.
        Portanto, a teoria do filósofo não constituium saber abstrato, O próprio tecido do seu pensar é a trama dos acontecimentos, é o cotidiano. Por isso a filosofia
se encontra no seio mesmo da história. No entanto, está mergulhada no mundo e fora dele: eis o paradoxo enfrentado pelo filósofo. Isso significa que o filósoto inicia
a caminhada a partir dos problemas da existência, mas precisa se afastar deles para melhor compreendê-los, retornando depois a fim de dar subsídios para as mudanças.


3.        A filosofia e a ciência

        No seu começo, a ciência estava ligada à filosofia, sendo o filósofo o sábio que refletia sobre todos os setores da indagação humana. Nesse sentido, os filósofos
Tales e Pitágoras eram também geômetras, e Aristóteles escreveu sobre física e astronomia.
        Na ordem do saber estipulada por Platão, o homem começa a conhecer pela forma imperfeita da opinião (doxa), depois passa ao grau mais avançado da ciência
(episteme), para só então ser capaz de atingir o nível mais alto do saber filosófico.

        A partir do século XVII, a revolução metodológica iniciada por Galileu promove a autonomia da ciência e o seu desligamento da filosofia. Pouco a pouco, desse
período até o século XX, aparecem as chamadas ciências particulares - física, astronomia, química. biologia, psicologia, sociologia etc. -, delimitando um campo
especifico de pesquisa.
        Na verdade, o que estava ocorrendo era o nascimento da ciência, como a entendemos modernamente. Com a fragmentação do saber, cada ciência se ocupa de um
objeto especifico: à física cabe investigar o movimento dos corpos; à biologia, a natureza dos seres vivos; à química, as transformações substanciais, e assim por
diante. Além da delimitação do objeto da ciência, se acrescenta o aperfeiçoamento do método científico, fundado sobretudo na experimentação e matematização (verCapítulos
14e IS).
        O confronto dos resultados e a sua verificabilídade permitem uniformidade de conclusões e, portanto, certa objetividade. As afirmações da ciência são chamadas
juízos de realidade, já que de uma forma ou de outra pretendem mostrar como os fenômenos ocorrem, quais as suas relações e, conseqüentemente, como prevê-los.
        A primeira questão que nos assalta é imaginar o que resta à filosofia, se. ao longo do tempo, foi "esvaziada" do seu conteúdo pelo aparecimento das ciências
particulares, tornadas independentes. Ainda mais que, no século XX, até as questões referentes ao homem passam a reivindicar o estatuto de cientificidade, representado
pela procura do método das ciências humanas.
        Ora, a filosofia continua tratando da mesma realidade apropriada pelas ciências. Apenas que as ciências se especializam e observam "recortes" do real, enquanto
a filosofia jamais renuncia a considerar o seu objeto do ponto de vista da totalidade. A visão da filosofia é de conjunto, ou seja, o problema tratado nunca é examinado
de modo parcial, mas sempre sob a perspectiva de conjunto, relacionando cada aspecto com os outros do contexto em que está inserido.
        Se a ciência tende cada vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real, para que o homem seja resgatado
na sua integridap de e não sucumba à alienação do saber parcelado. Por isso a filosofia tem uma função de
interdisciplinaridade, estabelecendo o elo entre as diversas formas do saber e do agir.
        O        trabalho da filosofia sob esse aspecto é importante e, sem negar o papel do especialista nem o valor da técnica que deriva desse saber, é preciso
reconhecer que o saber especializado, sem a devida visão de conjunto, leva à exaltação do "discurso competente (ver Capítulos 5 e
11) e às conseqüentes formas de
dominação.
A filosofia ainda se distingue da ciência pelo modo como aborda seu objeto: em todos os setores do conhecimento e da
ação, a filosofia está presente como reflexão crítica a respeito dos fundamentos
desse conhecimento e desse agir. Então, por exemplo, se a física ou a química se denominam ciências e usam determinado método, não é da alçada do próprio físico
ou do químico saber o que é ciência, o que distingue esse conhecimento de outros, o que é método, qual a sua validade, e assim por diante. Eles até podem dedicar-se
a esses assuntos, mas, quando o fazem, passam a se colocar questões filosóficas. O mesmo acontece com o psicólogo ao usar, por exemplo, o conceito de homem livre.
Indagar sobre o que é a liberdade é fazer filosofia.
        Mudando o enfoque: e se a questão for o comércio, ou a fábrica? A partir da análise das relações sociais resultantes da divisão do trabalho, podemos questionar
sobre o conceito subjacente de homem que se encontra nas relações estabelecidas socialmente.
        Portanto, a filosofia não faz juízos de realidade, como a ciência, mas juízos de valor. O filósofo parte da experiência vivida do homem trabalhando na linha
de montagem, repetindo sempre o mesmo gesto, e vai além dessa constatação. Não vê apenas como é, mas como deveria ser. Julga o valor da ação, sai em busca do significado
dela. Filosofar é dar sentido à experiência.


4.        O processo do filosofar

A filosofia de vida

        Como seria o caminhar do filósofo? Na medida em que somos seres racionais e sensíveis, estamos sempre dando sentido às coisas. Ao "filosofar" espontâneo
do homem comum, costumamos chamar filosofia de vida.
        No Capítulo 5 (Ideologia), quando nos referimos à passagem do senso comum para o bom senso, identificamos esse último à filosofia de vida. Enquanto o senso
comum é fragmentário, incoerente, preso a preconceitos e dogmático, o bom senso supõe a capacidade de organização que dá certa autonomia ao homem que analisa sua
experiência de vida cotidiana.
        Como veremos adiante, enquanto o homem comum faz sua filosofia de vida, o filósofo propriamente dito é um especialista. Mas o especialista filósofo é diferente
dos outros especialistas (como o físico ou o matemático). Por exemplo, quando observamos o estudioso de trigonometria, podemos bem pensar que grande
parte dos homens
não precisa se ocupar com esse assunto. No entanto, o mesmo não acotece com o objeto de estudo do filósofo, cujo interesse se estende a qualquer homem.
        Segundo Gramsci, "não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque pensar é próprio do homem como tal".
Isso significa que as questões filosóficas fazem parte do cotidiano de todos nós. Se o filósofo da educação investiga os fundamentos da pedagogia, o homem comum
também se preocupa em escolher critérios - não importa que sejam pouco rigorosos - a fim de decidir sobre as medidas a serem tomadas na educação de seus filhos.
        Estamos diante de diferentes filosofias de vida quando preferimos morar em casa e não em apartamento, quando deixamos o emprego bem pago por outro não tão
bem remunerado, porém mais atraente, ou quando escolhemos o colégio onde estudar. Há valores que entram em jogo aí. Se escolho um "colégio fraco para passar de ano
e ter tempo para passear", ou se, ao contrário, prefiro um "colégio forte para me preparar para o vestibular", ou, ainda dentro dessa última opção, "um bom colégio
para ter um contato melhor com o mundo da cultura e abrir as possibilidades de autoconhecimento", é preciso reconhecer que existem critérios bem diferentes fundamentando
tais decisões.


        É por isso que consideramos tão importante a introdução do estudo de filosofia nas escolas de
2º grau. Não propriamente para preparar futuros prováveis filósofos
especialistas, mas a fim de dar alguns subsídios para o aprimoramento da reflexão filosófica inerente a qualquer ser humano. Nesse sentido, o ensino da filosofia
deveria se estender a todos os cursos e não só às classes de ciências humanas.


A filosofia propriamente dita

        A filosofia propriamente dita tem condições de surgir no momento em que o pensar é posto em causa, tornando-se objeto de reflexao. Mas não qualquer reflexão.
Como vimos, o homem comum, no cotidiano da vida, é levado a momentos de parada, a fim de retomar o significado de seus atos e pensamentos, e nessa hora é solicitado
a refletir. Entretanto, ainda não é filosofia rigorosa o que ele faz.
        Examinemos a palavra reflexão: quando vemos nossa imagem refletida no espelho, há um "desdobramento", pois estamos aqui e estamos lá; no reflexo da luz,
ela vai até o espelho e retorna; reflectere, em latim, significa "fazer retroceder", "voltar atrás". Portanto, refletir é retomar o próprio pensamento, pensar o
já pensado, voltar para si mesmo e colocar em questão o que já se conhece.
        É ainda Gramsci quem diz: "o filósofo profissional ou técnico não só
"pensa" com maior rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do
que os outros homens, mas conhece toda a história do pensamento, sabe explicar o desenvolvimento que o pensamento teve até ele e é capaz de retomar os problemas
a partir do ponto em que se encontram, depois de terem sofrido as mais variadas tentativas de solução."2
        Segundo o professor flermeval Saviani, a reflexão filosófica é radical, rigorosa e de conjunto.3 Interpretaremos esses tópicos:
**nota
2 A. Gramsci, Obras escolhidas, p. 44.
Dermeval Saviani, Educação brasileira. estrutura e sistema, p. 68.

        Radical: a palavra latina radix, radicis significa "raiz", e no sentido figurado, "fundamento, base". Portanto, a filosofia é radical não no sentido corriqueiro
de ser inflexível (nesse caso seria a antifilosofia!), mas
enquanto busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir. Por exemplo, a filosofia das ciências examina os pressupostos
do saber científico, do mesmo modo que, diante da decisão de um vereador em aprovar determinado
projeto, a filosofia política investiga as "raízes" (os princípios políticos)
que orientam sua ação.

        Rigorosa: enquanto a "filosofia de vida" não leva as conclusões até as últimas conseqüências e nem sempre é capaz de examinar os fundamentos delas, o filósofo
deve dispor de um método claramente explicitado a fim de proceder com rigor, garantindo a coerência e o exercício da crítica. Mesmo porque o filósofo não faz afirmações
apenas, precisa justificá-las com argumentos. Para tanto usa de linguagem rigorosa, que evita as
ambiguidades das expressões cotidianas e lhe permite discutir com
outros filósofos a partir de conceitos claramente definidos. É por isso que o filósofo sempre "inventa conceitos", ou cria expressões novas (quanto fizeram isto
os gregos)) ou altera e especifica o sentido de palavras usuais.

        De conjunto: enquanto as ciências são particulares, porque abordam "recortes" da realidade e se distinguem de outras formas de conhecimento, e a ação humana
se expressa nas mais variadas formas (técnica, magia, arte, política etc.), a filosofia é globalizante, porque examina os problemas sob a perspectiva de conjunto,
relacionando os diversos aspectos entre si. Nesse sentido, além de considerarmos que o objeto da filosofia é tudo (porque nada escapa a seu interesse), completamos
que a filosofia visa ao todo, à totalidade. Daí a função de interdisciplinaridade da filosofia, estabelecendo o elo entre as diversas formas de saber e agir humanos.
        A maneira pela qual se faz rigorosamente a reflexão filosófica varia conforme a orientação do filósofo e as tendências históricas decorrentes da situação
vivida pelos homens em sua ação sobre o mundo.


Qual é a "utilidade" da
filosofia?

        Para responder à questão, precisamos saber primeiro o que entendemos por
utilidade. Eis o primeiro impasse. Vivemos num mundo em que a visão das pessoas está marcada pela busca dos resultados imediatos do conhecimento. Então, é considerada
importante
a pesquisa do biólogo na busca da cura do câncer; ou o estudo de matemática
no 2º grau  porque "entra no vestibular"; e constantemente o estudante se pergunta: "Para
que vou estudar isto, se não usarei na minha profissão?"

        Seguindo essa linha de pensamento, a filosofia seria realmente "inútil": não serve para nenhuma alteração imediata de ordem pragmática. Neste ponto, ela
é semelhante à arte. Se perguntarmos qual é a finalidade de uma obra de arte, veremos que ela tem um fim em si mesma e, nesse sentido, é "inútil".
        Entretanto, não ter utilidade imediata não significa ser desnecessário. A filosofia é necessaria.

        Onde está a necessidade da filosofia?

        Está no fato de que, por meio da reflexão (aquele desdobrar-se, lembra-se?), a filosofia permite ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é dada pelo
agir imediato no qual o "homem prático" se encontra mergulhado.
        É a filosofia que dá o distanciamento para a avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se destinam; reúne o pensamento fragmentado
da ciência e o reconstrói na sua unidade; retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la.

        Portanto, a filosofia é a possibilidade da transcendência humana, ou seja, a capacidade que só o homem tem de superar a situação dada e não-escolhida. Pela
transcendência, o homem surge como ser de projeto, capaz de liberdade e de construir o seu destino.
        O distanciamento é justamente o que provoca a aproximação maior do homem com a vida. Whitehead, lógico e matemático britânico contemporâneo, disse que "a
função da razão é promover a arte da vida". A filosofia recupera o processo perdido no imobilismo das coisas feitas (mortas porque já ultrapassadas). A filosofia
impede a estagnação.
        Por isso, o filosofar sempre se confronta com o poder, e sua investigação não fica alheia à ética e à política.
É o que afirma o historiador da filosofia
François Châtelet:
"Desde que há Estado - da cidade grega às
burocracias contemporâneas -, a idéia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes (ou foi recuperada por eles, como testemunha, por exemplo,
a evolução do pensamento francês do século XVIII ao seculo XIX). Por conseguinte, a contribuição especifica da
filosofia que se coloca ao serviço da liberdade, de
todas as liberdades, é a de minar, pelas análises que ela opera e pelas ações que desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência,
do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o que importa é fazer aparecer a máscara,
deslocá-la, arrancá-la... "4

        A filosofia é, portanto, a crítica da ideologia, enquanto forma ilusória de conhecimento que visa a manutenção de privilégios (ver Capítulo 5 - Ideologia).
Atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia, a-lethetiein, 'desnudar"), vemos que a verdade é pôr a nu aquilo que estava escondido,
e aí reside a vocação do filósofo: o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.
        Finalmente, a filosofia exige coragem. Filosofar não é um exercício puramente intelectual. Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as formas estagnadas
do poder que tentam manter o status quo. é aceitar o desafio da mudança. Saber para transformar.

        Lembremos que Sócrates foi aquele que enfrentou com coragem o desafio máximo da morte.

**notas
F.        Châtelet. Históra ria da Filosofia; Idéias, doutrinas, v. gp p.3O9.
6.        Filosofia: nem dogmatismo. nem ceticismo
        Vimos, no Capítulo 3 (O que é conhecimento), que o ceticismo é uma posição filosófica que conclui pela impossibilidade do
conhecimento, quer na forma moderada de suspensão provisória dojuizo, quer na radical recusa em formular qualquer conclusao.
        No outro extremo, existe o dogmatismo, segundo o qual o filósofo se considera de posse de certezas e de verdades absolutas e indubitáveis.
        Enquanto o dogmático se apega à certeza de uma doutrina, o cético conclui pela impossibilidade de toda certeza e, nesse sentido, considera inútil a busca
que não leva a lugar nenhum.
        Comparando as duas posições antagônicas, podemos perceber que elas têm em comum a visão imobilista do mundo: o
dogmático atinge uma certeza e nela permanece;
o cético anseia pela certeza e decide que ela é
        inalcançável.
        Mas a filosofia é movimento, pois o mundo é movimento. A certeza e sua negação são apenas dois momentos (a tese e a antítese) que serão superados pela síntese,
a qual, por sua vez, será nova tese, e assim por diante. A filosofia é a procura da verdade, não a sua posse, como disse Iaspers, filósofo alemão contemporâneo,
concluindo que "fazer filosofia é estar a caminho; as perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta".





Exercícios

        1.        Qual é a relação inicial da ciência com a filosofia e quando se dá a separação delas? Quais sao as principais diferenças entre ciência e filosofia?
        2.        O que é filosofia de vida? Como ela se disringue da filosofia do especialista?
        3.        O que caracteriza a reflexão filosófica propriamente dita?
        4.        O que significa dizer que a filosofia é inutil" mas necessária?
5.        Qual é a relação da filosofia com o poder?
        6. "Pois é impossível negar que a filosofia coxeia. Habita a história e a vida, mas quereria instalar-se no seu centro.
naquele ponto em que são advento,
sentido nascente. Sente-se mal nojá feito. Sendo expressão, só se realiza renunciando a coincidir com aquilo que exprime e afastando-se dele para lhe captar o sentido.
É a utopia de uma posse à distância." (Merleau-Ponty)
        Explique o que Merleau-Ponty quer dizer com: "só se realiza renunciando a coincidir com aquilo que exprime".
        7. Comente: "Toda filosofia comporta a secreta ambição de pôr termo à filosofia, sem dúvida
        sob o impulso de um instinto de morte. Na realidade, porém, a história atesta a regeneração
constante da reflexão, para além de todas as tentativas de a
liquidar". (Gusdorf).
        8. Leia o texto complementar 1, de Jaspers, e        responda:
           a) Por que a filosofia é perigosa?
           b) Em que sentido a antifilosofía é uma filosofia"?
            c) Explique por que a filosofia não é um pensamento dogmático.
        9. Comente: "No mundo atual, o esplendor de
nossos poderes humanos faz com que se ressalte,
numa visão trágica, a ambigüidade de nossos desejos. Somente a filosofia levanta
o problema dos valores". (Huisman e Vergez)
                  10. Leia o texto complementar II de Platão, e
responda:
a) O que significa a máxima de Sócrates, "só
sei que nada sei"? Em que sentido ela se refere a
Sócraies e à própria filosofia?
b) Em que medida a posição de Sócrates nao se
 confunde com o ceticismo?


Textos complementares

1
A filosofia no mundo

        Mas como se põe o mundo em relação com a filosofia? Há cátedras de filosofia nas universidades. Atualmente, representam uma posição embaraçosa. Por força
da tradição, a filosofia é polidamente respeitada, mas, no fundo, objeto de desprezo. A opinião corrente é a de que a filosofia nada tem a dizer e carece de qualquer
utilidade prática. É nomeada em público, mas - existirá realmente? Sua existência se prova, quando menos, pelas medidas de defesa a que dá lugar.
        A oposição se traduz em fórmulas como: a filosofia é demasiado complexa; não a compreendo; está além de meu alcance: não tenho vocação para ela; e, portanto,
não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil o interesse pelas questões fundamentais da vida; cabe abster-se de pensar no plano geral para
mergulhar,
através de trabalho consciencioso, num capitulo qualquer de atividade prática ou intelectual; quanto ao resto, bastará ter "opiniões" e contentar-se com elas.
        A polêmica torna-se encarniçada. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a filosofia. Ela é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha
vida, Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente.
        E surgem os detratores, que desejam substituir a obsoleta filosofia por algo de novo e totalmente diverso. Ela é desprezada como produto final e
mendas   de  uma teologia falida. A insensatez das proposições dos filósofos é ironizada. E a filosofia vê-se denunciada como instrumento servil de poderes políticos
e outros.
        Muitos políticos vêem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas
tão-somente usam de uma inteligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se
tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante.
Oxalá desaparecessem as cátedras de filosofia. Quanto mais vaidades se
ensinem, menos estarão os homens arriscados a se deixar tocar pela luz da filosofia.
        Assim, a filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição. A autocomplacência burguesa, os convencionalismos,
o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo
de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário - tudo isto proclama a antifilosofia. E os homens não o percebem porque
não se dão conta do que estão fazendo. E permanecem inconscientes de que a antifilosofia é uma filosofia, embora pervertida, que, se aprofundada, engendraria sua
própria aniquilação.
        O problema crucial é o seguinte: a filosofia aspira à verdade total, que o mundo não quer. A filosofia é, portanto, perturbadora da paz.

        E a verdade o que será? A filosofia busca a verdade nas múltiplas significações do ser-verdadeiro segundo os modos do abrangente.
Busca, mas não possui
o significado e substância da verdade unica. Para nós, a verdade não é estática e definitiva, mas movimento incessante, que penetra no infinito.
        No mundo, a verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o despe de violência. Em suas relações com tudo quanto existe,
o filósofo vê a verdade revelar-se a seus olhos, graças ao intercãmbio com outros pensadores e ao processo que o
torna transparente a si mesmo.
        Quem se dedica à filosofia põe-se à procura do homem, escuta o que ele diz, observa o que ele
faz e se interessa por sua palavra e ação, desejoso de partilhar, com seus concidadãos, do destino
comum da humanidade.
        Eis por que a filosofia não se transforma em credo. Está em contínua pugna consigo mesma.

        (Karl  Jaspers. Introdução ao Pensamento        Filosófico. p.
138)




II
Ciência e missão de Sócrates

        Ora, certa vez, indo a Delfos*, (Querofonte) arriscou esta consulta ao oráculo - repito, senhores: não vos amotineis - ele perguntou se havia alguém mais
sábio que eu; respondeu a Pitiap que
não havia ninguém mais sábio. Para testemunhar isso, tendes ai o irmão dele, porque elejá morreu.
        Examinai por que vos conto eu esse fato; é para explicar a procedência da calúnia. Quando soube daquele oráculo, pus-me a refletir assim: "Que quererá dizer
o deus? Que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco: que quererá ele, então, significar declarando-me o mais
sábio? Naturalmente, não está mentindo, porque isto lhe é impossível". Por longo tempo fiquei nessa incerteza sobre o sentido: por fim, muito contra meu gosto,
decidi-me
por uma investigação, que passo a expor. Fui ter com um dos que passam por sábios, porquanto, se havia lugar, era ali
que, para rebater o oráculo, mostraria ao deus: "Eis
aqui um mais sábio que eu. quando tu disseste que eu o era!" Submeti a exame essa pessoa -
é esçusado dizer o seu nome; era um dos políticos. Eis, Atenienses, a
impressão que me ficou do exame e da conversa que tive com ele: achei que ele passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não
o era. Meti-me, então, a explicar-lhe que supunha ser sábio. mas não o era. A conseqüência foi tornar-me odiado dele e de muitos dos circunstantes.
        Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: "Mais sábio do que esse homem eu sou, é bem provável qtte nenhum de nós saiba nada de bom, uas ele supõe
saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu. se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente em não supor que saiba o
que não sei". Daí fui ter com outro, um dos que passam por ainda mais sábios e tive a mesmisstma impressão; também ali me tornei odiado dele e de muitos outros.
        Depois disso, não parei, embora sentisse, com mágoa e apreensões, que me ia tornando odiado; nao obstante, parecia-me imperioso dar a maxima
importância
ao serviço  do deus. Cumpria-me, portanto, para averiguar o sentido do oráculo, ir ter com todos os
que passavam por senhores de algum saher. (...)
        Além disso, os moços que espontaneamente me acompanham - e são os que dispõem de mais tempo, os das famílias mais ricas - sentem prazer em ouvir o exame
dos homens: eles próprios imitam-me muitas vezes; nessas ocasioes. metem-se a interrogar os outros: suponho que descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber
alguma coisa, mas pouco sabem, quiçá nada. Em conseqüência, os que eles examinam se exasperam contra mim e não contra si mesmos e
propalam que existe um tal Sócrates,
um grande miserável, que corrompe a mocidade.

(Plaão, Defesa de Sócrates, Col. Os pensadores. São Paulo. Abril Cultural, 1972, p. 14.)


**
Em Delfos, havia um templo onde Apolo dava óráculos, predizendo o futuro.
Pítia -  Assim se chamava a sacerdotisa do templo de Delfos, que formulava os oráculos (N.T.).



CAPÍTULO 3


DO MITO À RAZÃO: NASCIMENTO DA FILOSOFIA NA GRÉCIA ANTIGA


Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado
estreitos para que o pensamento racional não apareça, em suas origens, solidário das estruturas sociais e
mentais próprias da cidade grega.

(Jean-Pierre Vernant)



1.        Introdução
Todos nós sabemos que os primeiros filósofos da humanidade foram gregos.
Isso significa que embora tenhamos referências de grandes homens na China (Confúcio, Lao Tsé), na
Índia (Buda), na Pérsia (Zaratustra), suas teorias ainda estão
por demais vinculadas à religião para que se possa falar propriamente em reflexão filosófica.
        O        que veremos neste capítulo é o processo pelo qual se tornou possível a passagem da consciência mítica para a consciência filosófica na civilização
grega, constituída por diversas regiões politicamente autônomas.

Periodização da história da Grécia Antiga

        - Civilização micênica -p desenvolve-se desde o inicio do segundo milênio a.C. e tem esse nome pela importância da cidade de Mícenas, de onde, no século
XII a.C., partem Agamemnon, Aquiles e
Ulisses para sitiar e conquistar Tróia.

        - Tempos homéricos (séculos XII a VIII a.C.) - sao assim chamados porque nesse periodo teria vivido Homero (século IX ou VIII). Na fase de transição de um
mundo essencialmente rural, o enriquecimento dos senhores faz surgir a aristocracia proprietária de terras e o desenvolvimento do sistema escravista.

        - Período arcaico (séculos VIII a VI a.C.) - grandes alterações sociais e políticas com o advento das cidades-estados ppólis) e desenvolvimento do comércio
e conseqUente movimento de colonização grega.

        -        Período clássico (séculos V e IV a.C-) - apogeu da civilização grega. Na política, expressão da democracia ateniense; explosao das artes, literatura
e filosofia. Epoca em que viveram os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles.

        -        Período helenístico (séculos III e II a.C.) - decadência política da Grécia, com o domínio macedônico e conquista pelos romanos.
Culturalmente
se dá a influência das civilizações orientais.


2.        A concepção mítica

As epopéias

        Os mitos gregos eram recolhidos pela tradição e transmitidos oralmente pelos aedos e rapsodos, cantores ambulantes que davam forma poética aos relatos populares
e os recitavam de cor em praça pública. Era difícil conhecer os autores de tais trabalhos de formalização, porque num mundo em que predomina a consciência mítica
não existe a preocupação com a autoria da obra, já que o anonimato é a conseqüência do coletivismo, fase em que ainda não se destaca a individualidade. Além disso,
não havia a escrita para fixar obra e autor.
        Por esse motivo há controvérsia a respeito da época em que teria vivido
Homero, um desses poetas, e até se ele realmente teria existido (séc. IX a.C.?).
É costume atribuirlhe a autoria de dois poemas épicos (epopéias): Ilíada, que trata da guerra de Tróia (Tróia em grego é Ilion), e Odisséia, que relata o
retorno de Ulisses a Ítaca, após a guerra de Tróia (Odisseus é o nome grego de Ulisses). Por vários motivos, inclusive pelo estilo diferente dos dois poemas, alguns
intérpretes
acham que são obras de diversos autores.
        De qualquer forma, as epopéias tiveram função didática importante na vida dos gregos porque descrevem o período da civilização micênica e transmitem os valores
da cultura por meio das histórias dos deuses e antepassados, expressando uma determinada concepção de vida. Por isso desde cedo as crianças decoravam passagens dos
poemas de Homero.
        As açôes heróicas relatadas nas epopéias mostram a constante intervenção dos deuses, ora para auxiliar um protegido seu, ora para perseguir um inimigo. O
homem homérico é presa do Destino (Moira), que é fixo, imutável, e não pode ser alterado. Até distúrbios psíquicos como o desvario momentâneo de Agamemnon são atribuidos
à ação divina. É nesse sentido a fala de Heitor: "Ninguém me lançará ao Hades" contra as ordens do destino! Garanto-te que nunca homem
algum, bom ou mau, escapou ao seu destino, desde que nasceu!"
        O        herói vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino, faltando a ele a nossa noção de vontade pessoal, de livre-arbítrio. Mas isto não o
diminui diante dos homens comuns. Ao contrário, ter sido escolhido pelos deuses é sinal de valor e em nada tal ajuda desmerece a sua virtude.
        A virtude do herói se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo no campo de batalha, mas também na assembléia, no discurso, pelo poder de persuasão.
O preceptor de Aquíles diz: "Para isso me enviou, a fim de eu te ensinar tudo isto, a saber fazer discursos e praticar nobres feitos".2 Nessa perspectiva, a noção
de virtude não deve ser confundida com o conceito moral de virtude como o conhecemos posteriormente, mas como excelência, superioridade, alvo supremo do herói. Trata-se
da virtude do guerreiro belo e bom.

A Teogonia

        Hesiodo, outro poeta que teria vivido por volta do final do século VIII e princípios do VII a.C., produz uma obra com
características que apontam para a
época que se vai iniciar a seguir, com particularidades que tendem a superar a poesia impessoal e coletiva das epopéias.
        Mas mesmo assim, sua obra Teogonia (teo: deus; gonia: origem) reflete ainda a preocupação com a crença nos mitos. Nela Hesíodo relata as origens do mundo
e dos deuses, e as forças que surgem não são a pura natureza, mas sim as próprias divindades: Gaia é a Terra, Urano é o Céu, Cronos é o Tempo, surgindo ora por segregação,
ora pela intervenção de Eros, princípio que aproxima os opostos.


**
Hades: deus do Mundo Subterrãneo (em Roma: Plutão). Também se refere ao Mundo dos
Mortos (Infernos). 2 Esta citação e as referidas no exercício 3 são da
Íliada e Odisséia. apud Maria Helena Rocha Pereira, Estudos de
históriu da cultura clássica, p. 90, 98. 101 e 102.


3.        A concepção filosófica

        É no período arcaico que surgem os primeiros filósofos gregos, por volta de fins do século VII a.C. e durante o século VI a.C.

        Alguns autores costumam chamar de "milagre grego" a passagem do pensamento
mítico para o pensamento crítico racional e filosófico. Atenuando a ênfase dada a essa "mutação", no entanto, alguns estudiosos mais recentes pretendem superar essa
visão simplista e a-histórica, realçando o fato deque o surgimento da racionalidade crítica foi o resultado de um processo muito lento, preparado pelo passado mítico,
cujas características não desaparecem "como por encanto na nova abordagem filosófica do mundo. Ou seja, o surgimento da filosofia na Grécia não
foi o  resultado de um salto, um "milagre" realizado por um povo privilegiado, mas a culminação de um processo que se fez através dos témpos e tem sua divida com
o passado mítico.
        Algumas novidades surgidas no período arcaico ajudaram a transformar a visão que o homem mítico tinha do mundo e de si mesmo. São elas a invenção da escrita,
o surgimento da moeda, a lei escrita, o nascimento da pólis (cidade-estado), todas elas
tornando-se condição para o surgimento do filósofo. Vejamos como isso se deu.

A escrita

        Geralmente a consciência mítica predop mina nas culturas de tradição oral, onde ainda não há escrita. E interessante observar que mythos significa "palavra",
"o que se diz". A palavra antes da escrita, ligada a um suporte vivo que a pronuncia, repete e fixa o evento por meio da memória pessoal. Aliás, etimologicamente,
epopéia significa "o que se exprime pela palavra" e lenda é "o que se conta".
        É bem verdade que, de inicio, a primeira escrita é mágica e reservada aos privilegiados, aos sacerdotes e aos reis. Entre os egípcios, por exemplo, hieróglifos
significa literalmente "sinais divinos".
        Na Grécia, a escrita surge por influência dos fenícios e já no século VIII a.C. se acha suficientemente desligada de preocupações esotéricas e religiosas.
Enquanto os rituais religiosos são cheios de fórmulas mágicas, termos fixos e inquestionados, os escritos deixam de ser reservados apenas aos que detêm o poder e
passam a ser divulgados em praça pública, sujeitos à discussão e à crítica. Apenas um parêntese esclarecedor: isso não significa que a escrita tenha se tornado acessível
a todos. Muito ao contrário, permanece ainda grande o número de analfabetos. O que está em questão, no entanto, é a
dessacralização da escrita, ou seja, seu desligamento da religião.
        A escrita gera uma nova idade mental porque exige de quem escreve uma postura diferente daquela de quem apenas fala. Como a escrita fixa a palavra, e conseqüentemente
o mundo, para além de quem a proferiu, necessita de mais rigor e clareza, o que estimula o espírito crítico. Além disso, a retomada posterior do que foi escrito
e o exame pelos outros - não só de contemporâneos mas de outras gerações - abrem os horizontes do pensamento, propiciando o distanciamento do vivido, o confronto
das idéias, a ampliação da crítica.
        Portanto, a escrita aparece como possibilidade maior de abstração, uma reflexão da palavra que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento.

A moeda

        Por volta dos séculos VIII a VI a.C. houve o desenvolvimento do comércio marítimo decorrente da expansão do mundo grego mediante a colonização da Magna Grécia
(atual sul da Itália) e Jõnia (atual Turquia). O enriquecimento dos comerciantes promoveu profundas transformações decorrentes da substituição dos valores aristocráticos
pelos valores da nova classe em ascensão.
        Na época da predominância da aristocracia rural, cuja riqueza se baseava em terras e rebanhos, a economia era pré-monetária e os objetos usados para troca
vinham carregados de simbologia afetiva e sagrada, decorrente da posição social ocupada por homens considerados superiores e do caráter sobrenatural que impregnava
as relações sociais.
        A fim de facilitar os negócios, a moeda, que tinha sido inventada na Lídia, aparece na Grécia por volta do século VII a.C. A moeda torna-se necessária porque,
com o comércio, os produtos que antes eram feitos sobretudo com valor de uso passam a ter valor de troca, isto é, transformam-se em mercadoria,
Daí a exigência de
algo que funcionasse como valor equivalente universal das mercadorias.
        A invenção da moeda desempenha papel revolucionário, pois está vinculada ao nascimento do pensamento racional. Isso porque passa a ser emitida e garantida
pela Cidade, revertendo benefícios para a própria comunidade. Além desse efeito político de democratização, a moeda sobrepõe aos simbolos
sagrados e afetivos o caráter racional de sua concepção: muito mais do que um metal preciosoque se troca por qualquer mercadoria, a moeda é um artifício racional,
uma convenção humana, uma noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores diferentes.

A lei escrita

        Drácon (séc. VII a.C.), Sólon e Clistenes (séc. VI a.C.) são os primeiros legisladores que marcam uma nova era: a justiça, até então dependente da arbitrariedade
dos reis ou da interpretação da vontade divina, é codificada numa legislação escrita. Regra comum a todos, norma racional, sujeita à discussão e modificação, a lei
escrita passa a encarnar uma dimensão propriamente humana.
        As reformas provocadas pela legislação de Clístenes fundam a pólis sobre uma base nova: a antiga organização tribal é abolida e estabelecem-se novas relações,
não mais baseadas na consangüinidade, mas determinadas por nova organização administrativa. Tais modificações expressam o ideal igualitário que prepara a democracia
nascente, pois a unificação do corpo social abole a hierarquia fundada no poder aristocrático das famílias.

O cidadão da pólis

        Jean-Pierre Vernant, helenista e pensador francês, vê no nascimento da pólis (por volta dos séculos VIII e VII a.C.) um acontecimento decisivo que "marca
um começo, uma verdadeira invenção", que provocou grandes alterações na vida social e nas relações entre os homens.
        A originalidade da cidade grega é que ela está centralizada na
agora (praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. Separam-se
na pólis o domínio público e o privado: isto significa que ao ideal de valor de sangue, restrito a grupos privilegiados em função do nascimento ou fortuna, se sobrepõe
a justa distribuição dos direitos dos cidadãos enquanto representantes dos interesses da cidade. Está sendo elaborado o novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão
tem direito ao poder. A nova noção de justiça assume caráter político, e não apenas moral,
ou seja, ela não diz respeito apenas ao indivíduo e aos interesses da tradição familiar, mas se refere a sua atuação na comunidade.
        A pólis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana
do conflito, da discussão, da argumentação. O saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão.
        A expressão da individualidade por meio do debate faz nascer a política, libertando o homem dos exclusivos designios divinos, e permitindo a ele tecer seu
destino na praça pública. A instauração da ordem humana dá origem ao cidadão da
pólis, figura inexistente no mundo coletivista da comunidade tribal.
        Portanto, o cidadão da pólis participa dos destinos da cidade por meio do uso da palavra em praça pública. Mas para que isso fosse possível, desenvolveu-se
uma nova concepção a respeito das relações entre os homens, não mais assentadas nas suas diferenças, na hierarquia típica das relações de submissão e domínio. Ou
seja, "os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira
"semelhantes" uns aos outros".
De início a igualdade existe apenas entre os guerreiros, mas "essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia:
igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder"3.


**
3. J.-P. Vernant, As origens do pensamento grego, p. 42.

        O apogeu da democracia ateniense se dá no século V a.C., já no período clássico, quando Péricles era estratego. É bem verdade que Atenas possuia meio milhão
de habitantes, dos quais 300 mil eram escravos e 50 mil metecos (estrangeiros); excluídas mulheres e crianças, restavam apenas 10% considerados cidadãos propriamente
ditos, capacitados para decidir por todos.
        Por isso, quando falamos em democracia ateniense, é bom lembrar que a maior parte da população se achava excluída do processo político. Aliás, quanto mais
se desenvolvia a idéia de cidadão ideal, com a consolidação da democracia, mais a escravidão surgia como contraponto indispensável, na medida em que ao escravo eram
reservadas as tarefas consideradas "menores" dos trabalhos manuais e da
luta pela sobrevivência. Mas não resta dúvida de que, na fase aristocrática anterior, havia ainda outros tipos de privilégios. O que enfatizamos no processo é a
mutação do ideal político e o surgimento de uma concepção nova de poder.
        O ideal teórico da nova classe dos comerciantes será elaborado pelos sofistas. filósofos do século V a.C. (ver Capítulo 19 - O pensamento político grego).

O nascimento do filósofo

        A grande aventura intelectual dos gregos não começa propriamente na Grécia continental, mas nas colônias: na
Jônia (metade sul da costa ocidental da Ásia
Menor) e na Magna Grécia (sul da península itálica e Sicilia).
        Os primeiros filósofos viveram por volta do século VI a.C. e, mais tarde, foram classificados como
pré-socráticos (a divisão da filosofia grega se centraliza
na figura de Sócrates) e agrupados em diversas escolas. Por exemplo, escolajônica(Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empédocles).
escola itálica (Pitágoras), escola eleática (Xenófanes, Parmênides, Zenão); escola atomista (Leucipo e Demócrito).
        Os escritos dos filósofos pré-socráticos desapareceram com o tempo, e só nos restam alguns fragmentos ou referências feitas por
fi                lósofos posteriores. Sabemos que geralmente,
                escreviam em prosa, abandonando a forma
                poética característica das epopéias,
dos relatos míticos.
                    É interessante notar que, enquanto
                Hesíodo, ao relatar o princípio do mundo
                (cosmo gonia) e dos deuses (teogonia), refere-
                se a sua gênese ou origem, as preocupações dos
                primeiros pensadores levam à elaboração de
                uma cosmologia, pois procuram a racionalidade do universo. Isso significa que, ao
perguntarem como seria possível emergir do Caos um "cosmos" - ou seja, como da confusão
inicial surgiu o mundo ordenado -, os pré-so-
                cráticos procuram o princípio (a arché) de todas as coisas,
entendido este não como o que antecede no tempo, mas enquantoftundamento
do ser. Buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas.
A filosofia surgiu no século VI a.C. nas colônias gregas da Magna Grécia e da Jônia. Só no século seguinte desloca-se para Atenas, centro da fermentação cultural
do período clássico.

        As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas são as mais variadas. Cada um descobre a arché, a unidade que pode explicar a multiplicidade:
para Tales é a água; para Anaximenes é o ar; para Demócrito é o átomo; para Empédocles, os famosos quatro elementos, terra, água, ar e fogo, teoria aceita até o
século XVIII. quando foi criticada por Lavotsier.



4.        Mito e filosofia: continuidade e ruptura

        Já podemos observar a diferença entre o pensamento mítico e a filosofia nascente: os filósofos divergem entre si e a filosofia se distingue da tradição dogmática
dos mitos oferecendo uma pluralidade de explicações possíveis. Assim justificamos a perspectiva comumente aceita da ruptura entre mythos e logos (razão).

        No entanto, estudiosos como Cornford se preocuparam em encontrar os elementos que, apesar das diferenças, mostrassem como o pensamento filosófico nascente
ainda tinha vinculações com o mito. Segundo Vernant, Cornford observou que a física jônica é a expressão do pensamento filosófico racional e abstrato, pois recorre
a argumentos e não a explicações sobrenaturais. No entanto, se a atitude do filósofo o distingue do homem mítico, o conteúdo da filosofia permanece semelhante ao
do mito, e dele o aproxima.

Por exemplo, Hesíodo relata na Teogonia como Gaia (Terra) gera sozinha, por segregação, o Céu e o Mar; depois, a união da Terra com o Céu, presidida por Eros (princípio
de coesão do Universo), resulta na geração dos deuses. Ora, examinando os textos dos filósofos jônicos, Cornford descobriu neles a mesma estrutura de pensamento
existente no relato mítico: os jônios afirmam que, de um estado inicial de indistinção, separam-se pares opostos (quente e frio, seco e úmido) que vão gerar os seres
naturais
(o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido), Para os filósofos, a ordem do mundo deriva de forças opostas que se equilibram reciprocamente, e a união dos
opostos explica os fenómenos meteóricos, as estações do ano, o nascimento e a morte de tudo que vive,4
--
4s.-p. Vemant. Mito e pensomento entre os gregos, p. 297.

        Portanto, na passagem do mito à razão, há continuidade no uso comum de cenas estruturas de explicação. Na concepção de Cornford não existe "uma imaculada
concepção da razão", pois o aparecimento da filosofia é um fato histórico enraizado no passado.

        Embora existam esses aspectos de continuidade, a filosofia surge como algo muito diferente, pois resulta de uma ruptura quanto à atitude diante do saber
recebido, Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia problematiza e, portanto, convida à discussão. Enquanto no mito a inteligibilidade
é dada, na filosofia ela é procurada. A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos.

        Ainda mais: a filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos, o debate e a discussão, organiza-se em doutrina e surge, portanto,
como pensamento abstrato.
        Na nova abordagem do real caracterizada pelo pensamento filosófico, podemos ainda notar a vinculação entre filosofia e ciência. O próprio teor das preocupações
dos primeiros filósofos é de natureza cosmológica. de maneira que, na Grécia Antiga, o filósofo é também o homem do saber científico. Só no século XVII as ciências
encontram seu próprio método e separam-se da filosofia, formando as chamadas ciências particulares (ver Capitulo 14- A ciência na Idade Moderna).



Exercícios

        1. Levante as principais idéias do capítulo.
        2.        Qual é a importância das epopéias no período homérico?
        3.        Explique qual é o sentido das citações a seguir, tendo em vista a concepção de homem transmitida pelas epopéias.
        a) Diz a deusa Atenas a Ulisses: "Eu sou uma divindade que te guardo sem cessar, em todos os trabalhos".
        b) Agamemnon, depois de um desvario momentâneo, diz: "Não sou eu o culpado, mas
Zeus, o Destino e a Erínia, que caminha na sombra", (Erínías eram deusas
da vingança, também chamadas Fúrias.).

        4. Segundo o historiador da filosofia Bumet, "se o (grego) inventou a filosofia, deve-o às suas qualidades de inteligência excepcionais: o espírito de observação
aliado ao poder do raciocínio". Tal concepção, típica da crença no "milagre grego", mereceu a critica de filósofos como Vemant.
        a) Explique qual é o significado dessa crítica.
        b) Especifique melhor a crítica, referindo-se à importância do advento da escrita, moeda etc.
        c) Explique: "A filosofia é filha da Cidade".
        5.        Contraponha a noção de virtude para o herói mítico e para o cidadão da pólis.
        6.        Qual é a importância da ágora pata o desenvolvimento da democracia?
        7.        "Em todas as literaturas, a prosa é posterior ao verso, como a reflexão o é à imaginação. A
literatura grega não faz exceção à regra, antes a
acentua, pois o desnível cronológico entre ambas deve importar uns três séculos." (M. Helena Rocha
Pereira)
        a) Quais são as obras em prosa? E as em verso?
        b) Em que épocas elas aparecem?
        c) Explique o que a autora quer dizer com a oposição imagina ção-reflesAo.

        8.        Leia o texto complementar 1 e identifique os elementos que denotam continuidade em
relação ao pensamento mítico.
        9.        Platão viveu no século V a.C., mas ainda sentia próxima a influência da tradição de Homero. Leia o texto complementar II e justifique por que Platão
teme a poesia.

Pesquisa

        Dividir a classe em quatro grupos, que deverão pesquisar a respeito das seguintes escolas de filosofia: escola jônica; escola itálica; escola
eleática; escola
atomista.


Textos complementares

1
Pré-socráticos

        Como a maior parte das obras dos pré-socráticos desapareceram,
Herman Diels e Walther Kranz selecionaram os fragmentos que sobraram, reconhecendo os
autênticos.
assim como fizeram levantamento de uma ampla doxografia, ou seja, transcreveram as referências de diversos autores a respeito daqueles filósofos. Os trechos a seguir
referem-se a alguns desses fragmentos, bem como a comentários de doxó graf os.

Anaximandro

        Anaximandro não explica a gênese pela mudança do elemento primordial, mas pela separação dos contrários em conseqüência do movimento eterno. (Simplício)
        Contrários são quente e frio, seco e úmido, e os outros. (Simplício)
        Anaximandro afirma que, por ocasião da gênese deste cosmos, a força criadora do princípio
eterno separou-se do calor e do frio, formando-se uma esfera deste fogo ao redor do ar que envolve a
Terra, assim como a casca em torno da árvore. Quando esta se rompeu, dividindo-se em diversos
círculos, formaram-se o Sol, a Lua e as estrelas. (Pseudo Plutarco)

Anaxímenes
        Outros dizem que a alma é ar, como Anaximenes e alguns estóicos. (Filópono)
        As estrelas surgiram da Terra, ao destacar-se desta a umidade ascendente; com a rarefação da
umidade, surgiu o fogo; e do fogo, que se elevava, constituíram-se as estrelas. (Hipólito)

Heráclito
        (Heráclito afirma a unidade de todas as coisas: do separado e do não separado, do gerado e do não gerado, do mortal e do imortal, da palavra (logos) e
do eterno, do pai e do filho, de Deus e da justiça.) É sábio que os que ouviram, não a mim, mas as minhas palavras (logos), reconheçam que todas as coisas são um.
        Eles não compreendem como, separando-se, podem harmonizar-se: harmonia de forças contrarias, como o arco e a lira,
        A guerra é o pai de todas as coisas e de todas o rei; de uns fez deuses, de outros, homens; de
uns, escravos, de outros, homens livres.

Parmênides
        Os (anéis) mais estreitos estão cheios de fogo sem mistura; os (seguintes) estão cheios da noite, mas entre ambos está projetada a
parte de fogo; no centro
destes (anéis) está a divindade que tudo governa; pois em tudo ela é o princípio do cruel nascimento e da união, enviando o feminino a unirse com o masculino, como,
ao contrário, o masculino com o feminino.
        Em primeiro lugar criou (a divindade do nascimento ou do amor), entre todos os deuses, a Eros (...).

Empédocles
        Ainda outra coisa te direi. Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais, como não há
fim na morte funesta, mas somente composição e dissociação dos elementos compostos: nascimento
não é mais do que um nome usado pelos homens.
        Esta (luta das duas forças) é manifesta na massa dos membros humanos: às vezes, unem-se pelo amor todos os membros que atingiram a corporeidade, na culminância
da vida florescente; outras, divididos pela cruel força da discórdia, erram separados nas margens da vida. Assim também com as árvores e peixes das águas, com os
animais selvagens das montanhas e os pássaros mergulhões levados por suas asas.
(Apud O. Bornheim, Os filósofos pré-socráticos, p. 26,29, 39, 57.69 e 70.)


II

Os poetas

        Trata-se de um trecho do Livro X de A República: no diálogo, as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os
irmãos mais novos de Platão.

        - E no entanto não acusamos ainda a poesia do mais grave de seus malefícios. Que ela seja, com efeito, capaz de corromper até as pessoas honestas, afora
um pequeno número, eis o que sem
dúvida é realmente temível.
        - Seguramente, se ela surte tal efeito.
        - Ouve, e considera o caso dos melhores dentre nós. Quando ouvimos
Homero ou qualquer outro poeta trágico imitar um herói na dor, o qual, em meio de seus
lamentos, se estende em longa tirada, ou canta, ou se golpeia no peito, sentimos, como sabes, prazer,
abandonamo-nos para acompanhá-lo com nossa simpatia e, em nosso
entusiasmo, louvamos como bom poeta aquele que, no mais alto grau possível, provocou em nós tais disposições.
        -        Sei disso; como poderia ignorá-lo.
        -        Mas, quando um infortúnio doméstico nos fere, já reparaste sem dúvida que temos como ponto de honra manter a atitude contrária, isto é, permanecer
calmos e corajosos, porque assim age
um homem e porque a conduta que há pouco aplaudimos só convém ás mulheres.

        -        Assim pois, Glauco, quando te deparares com panegiristas de Homero, afirmando que este poeta efetuou a educação da Grécia e que, para administrar
os negócios humanos ou ensinar o seu manejo, é justo tomá-lo em mão, estudá-lo e viver regulando por ele toda a existência, deves por certo saudá-los e acolhê-los
amigavelmente, como homens que são tão virtuosos quanto possível, e conceder-lhes que Homero é o príncipe da poesia e o primeiro dos poetas trágicos, mas saber outrossim
que, em matéria de poesia, não se deve admitir na cidade senão os hinos em honra dos deuses e os elogios à gente de bem. Se, ao invés, admitires a Musa voluptuosa,
o prazer e a dor serão os reis de tua cidade, em lugar da lei e deste princípio que, por comum acordo, sempre foi considerado o melhor, a razão.

(Platão, A República.a, p. 224 e ss.)


*****

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